A Nudes da mulher é obra de Deus
Excesso de Pranto ri, excesso de riso chora.
O Rugir dos leões, o uivar dos lobos,
O mar revolto e a espada destruidora
São fragmentos da eternidade,
Muito grandes para os olhos do homem.
A raposa culpa a cilada,
não a si mesma!
Júbilo fecunda. Tristeza gera.
Vista o homem a pele de leão,
a mulher a lã de ovelha,
o pássaro um ninho,
a aranha uma teia,
o homem amizade.
O tolo egoísta e risonho
e o tolo sisudo e tristonho,
serão julgados sábios,
para que sejam exemplos.
O que hoje foi provado, um dia foi apenas imaginado!
O rato, o camundongo, a raposa e o coelho
espreitam as raízes.
O tigre, o cavalo e o elefante
espreitam os frutos.
A cisterna contém, a fonte transborda.
Paulo Olivie
28/09/2009
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
quinta-feira, 25 de junho de 2009
"Quando a vida da gente está emperrada, será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarregem de nos dar um novo rumo? Provavelmente sim, no mínimo. É preciso que o abandono seja uma festa, que o adeus receba também uma cerimônia. Lacan, o psicanalista dizia que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", uma mudança substâncial na nossa relação com o mundo, com nós mesmos. O amor surge quando está na hora da gente se transformar ou, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido.
Talvez as duas sejam verdadeiras. Mas como esbarrar num amor que nos transforme? As vezes tenho a sensação que os encontros acontecem a cada esquina, a cada olhar e o difícil é ter coragem de vivê-los. A resposta talvez esteja na decepção por não conseguir aventurar-se a viver seus sonhos e se conformar com uma certa mediocridade afetiva.
Em suma, todos estão precisando de uma mudança, simples, mas crucial. Alterando talvez as regras ou convenções sociais podemos proporcionar a chance do encontro, dar uma chance a sua vida ou, então, voltar cada um para seu "conforto", para a beleza melancólica e a desistência, muito parecidas com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia.
Fica a sugestão:
Talvez o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas do coração de nos apresentar-mos por nossas falhas, feridas e perdas".
Olivie
jun/2009
Talvez as duas sejam verdadeiras. Mas como esbarrar num amor que nos transforme? As vezes tenho a sensação que os encontros acontecem a cada esquina, a cada olhar e o difícil é ter coragem de vivê-los. A resposta talvez esteja na decepção por não conseguir aventurar-se a viver seus sonhos e se conformar com uma certa mediocridade afetiva.
Em suma, todos estão precisando de uma mudança, simples, mas crucial. Alterando talvez as regras ou convenções sociais podemos proporcionar a chance do encontro, dar uma chance a sua vida ou, então, voltar cada um para seu "conforto", para a beleza melancólica e a desistência, muito parecidas com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia.
Fica a sugestão:
Talvez o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas do coração de nos apresentar-mos por nossas falhas, feridas e perdas".
Olivie
jun/2009
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Televisão a Dois
TELEVISÃO A DOIS
Roteiro Adaptado por
PAULO OLIVIE
Baseado no conto "Televisão Para Dois", do livro
"A Falta que Ela me Faz" de FERNANDO SABINO.
Roteiro Adaptado por
PAULO OLIVIE
Baseado no conto "Televisão Para Dois", do livro
"A Falta que Ela me Faz" de FERNANDO SABINO.
1. Sinopse
2. Objetivos do Projeto
3. Justificativa
4. Abordagem do tema, enfocando os aspectos culturais da região de que tratam o projeto
5. Roteiro com divisão de sequências e os diálogos
1 - SINOPSE
Carlos é um homem comum, que vive uma vida comum, e mora num apartamento comum. Depois de trabalhar o dia inteiro, adora a privacidade e tranqüilidade do seu apartamento.
Um dia sua rotina é totalmente quebrada. Carlos chega em casa e pega a empregada no flagra, assistindo televisão na sala de estar.
Mesmo não gostando da cena, deixa a mulher assistir à novela sossegada.
Ledo engano - daí para diante, a empregada vai ficando cada vez mais dona da casa, ocupando cada vez mais espaço e aborrecendo cada vez mais o nosso Carlos. A relação patrão-empregada vai se corrompendo de tal forma que não se sabe mais quem realmente manda na casa.
PERSONAGENS:
Carlos nasceu numa família simples, no interior do Rio de Janeiro. Começou a trabalhar cedo para poder pagar o colégio e o curso técnico de Contabilidade. Hoje Carlos está com 35 anos, é um homem comum, solteiro. Trabalha o dia inteiro num pequeno escritório: um trabalho monótono e cansativo, que deixa o nosso personagem acabado no final do dia.
A essa hora, Carlos adora chegar em casa e aproveitar a calma, a tranquilidade e a privacidade do seu lar, doce lar: gosta de ler os cadernos de esporte em revistas e jornais, ver as fotos da nova gata da playboy, ouvir música brasileira e assistir aos jogos de futebol na TV. Principalmente de seu time de coração, o FLAMENGO.
Carlos é uma pessoa calma, de boa índole. É reservado, tímido, não sai muito. Gosta de ficar em casa. Tem sua rotina bem regular: horários, hábitos, etc. Não tem grandes ambições na vida - gosta da vida que leva.
Fisicamente, é bem comum: moreno, não muito alto, nem muito baixo, com uma barriguinha de chopp. Trabalha de terno e gravata, mas nada muito chique. Os ternos são puídos e as camisas sempre meio apertadas.
ETELVINA:
Etelvina é a empregada que trabalha no apartamento de Carlos. É nordestina, mas já se acostumou com a o ritmo de vida do carioca. É nova (mais ou menos 20 anos), simples, tímida - anda meio curvada, olhando sempre para o chão. Etelvina é filha de Joselina, uma bonita mulher cearense que teve um desses casos de carnaval com um pierrot carioca. Joselina resolveu vir a Rio com sua filha, atrás de seu antigo amor.
Etelvina é a cara do pai, uma menina atraente e solitária, que sonha em um dia encontrar o homem ideal. Ela lava, passa, faz faxina e as vezes cozinha. Mas logo fica aborrecida: o apartamento de Carlos é pequeno e ela não tem muito o que fazer o dia inteiro.
Etelvina é simplória, religiosa, mas tem um vício: novela. Assiste a todas as novelas, não perde um capítulo, compra as trilhas sonoras, lê as revistas de fofocas e têm "posters" dos astros colados no seu quartinho. Quando Carlos está fora, trabalhando, ela vai até a sala e assiste as novelas. Só não consegue ver a das 8 horas, que coincide com a hora em que Carlos volta para casa.
Carlos é um homem comum, que vive uma vida comum, e mora num apartamento comum. Depois de trabalhar o dia inteiro, adora a privacidade e tranqüilidade do seu apartamento.
Um dia sua rotina é totalmente quebrada. Carlos chega em casa e pega a empregada no flagra, assistindo televisão na sala de estar.
Mesmo não gostando da cena, deixa a mulher assistir à novela sossegada.
Ledo engano - daí para diante, a empregada vai ficando cada vez mais dona da casa, ocupando cada vez mais espaço e aborrecendo cada vez mais o nosso Carlos. A relação patrão-empregada vai se corrompendo de tal forma que não se sabe mais quem realmente manda na casa.
PERSONAGENS:
Carlos nasceu numa família simples, no interior do Rio de Janeiro. Começou a trabalhar cedo para poder pagar o colégio e o curso técnico de Contabilidade. Hoje Carlos está com 35 anos, é um homem comum, solteiro. Trabalha o dia inteiro num pequeno escritório: um trabalho monótono e cansativo, que deixa o nosso personagem acabado no final do dia.
A essa hora, Carlos adora chegar em casa e aproveitar a calma, a tranquilidade e a privacidade do seu lar, doce lar: gosta de ler os cadernos de esporte em revistas e jornais, ver as fotos da nova gata da playboy, ouvir música brasileira e assistir aos jogos de futebol na TV. Principalmente de seu time de coração, o FLAMENGO.
Carlos é uma pessoa calma, de boa índole. É reservado, tímido, não sai muito. Gosta de ficar em casa. Tem sua rotina bem regular: horários, hábitos, etc. Não tem grandes ambições na vida - gosta da vida que leva.
Fisicamente, é bem comum: moreno, não muito alto, nem muito baixo, com uma barriguinha de chopp. Trabalha de terno e gravata, mas nada muito chique. Os ternos são puídos e as camisas sempre meio apertadas.
ETELVINA:
Etelvina é a empregada que trabalha no apartamento de Carlos. É nordestina, mas já se acostumou com a o ritmo de vida do carioca. É nova (mais ou menos 20 anos), simples, tímida - anda meio curvada, olhando sempre para o chão. Etelvina é filha de Joselina, uma bonita mulher cearense que teve um desses casos de carnaval com um pierrot carioca. Joselina resolveu vir a Rio com sua filha, atrás de seu antigo amor.
Etelvina é a cara do pai, uma menina atraente e solitária, que sonha em um dia encontrar o homem ideal. Ela lava, passa, faz faxina e as vezes cozinha. Mas logo fica aborrecida: o apartamento de Carlos é pequeno e ela não tem muito o que fazer o dia inteiro.
Etelvina é simplória, religiosa, mas tem um vício: novela. Assiste a todas as novelas, não perde um capítulo, compra as trilhas sonoras, lê as revistas de fofocas e têm "posters" dos astros colados no seu quartinho. Quando Carlos está fora, trabalhando, ela vai até a sala e assiste as novelas. Só não consegue ver a das 8 horas, que coincide com a hora em que Carlos volta para casa.
2 - OBJETIVO DO PROJETO
Projeto cinematográfico de Curta Metragem, digital ou bitola 35 mm, colorido, com ótico e com duração de aproximadamente 07 minutos. "Televisão a Dois" é uma adaptação livre do conto "Televisão para Dois", do livro "A Falta Que Ela Me Faz" de Fernando Sabino.
O Projeto tem, como objetivo técnico o exercício de adaptação do conto literário para a linguagem audiovisual, onde a História adquire um caráter visual, alterando suas características narrativas, mas mantendo o espírito do autor.
3 - JUSTIFICATIVA
"Televisão a Dois" é um filme de baixo custo, pois possui apenas 2 atores, 1 cenário, pouco figurino e todas as cenas são feitas a noite. A própria história facilita o orçamento, pois todas as cenas são muito parecidas, causando propositalmente a sensação de repetição a partir de situações do cotidiano de um cidadão médio, como ir ao trabalho...chegar do trabalho, assistir TV, etc.
Trata-se de um filme simples, como a obra literária, sem efeitos, trucagens. O importante neste trabalho é a construção da narrativa, repetitiva e o trabalho com os Atores.
4 - ABORDAGEM DE TEMA, ENFOCANDO OS ASPECTOS CULTURAIS DA REGIÃO DE QUE TRATAM O PROJETO
Projeto de natureza cultural. Através do cotidiano da vida de um carioca de origem social baixa, torcedor do Flamengo que consegui subir um degrau na escala social, passando a fazer parte da chamada "classe média baixa". Com seu emprego e salário ele pode contratar uma empregada, que representa aqui sua ascenção social. Acho oportuno também colocar as diferenças culturais e de valores entre pessoas provenientes de diferentes Estados, neste caso, o carioca Carlos com a cearense etelvina.
A história se passa no Rio de Janeiro, mas pode ser filmada em qualquer cidade, pois todas as cenas são interiores.
Finalmente acho importante ressaltar a presença constante da televisão na vida do cidadão, ditando regras de conduta e comportamento, como muito humor, outra característica do Brasileiro.
5 - ROTEIRO COM DIVISÃO DE SEQUÊNCIAS
1 - INTERIOR - CORREDOR DO PRÉDIO – NOITE
Um corredor de prédio simples, que dá para várias portas de apartamentos. É noite, mas a luz do corredor está apagada. Carlos está chegando em casa depois de um exaustivo dia de trabalho. Sai do elevador e entra no corredor.
Locutor em off
Esse é Carlos. Ele acaba de ter um dia exaustivo de trabalho.
Carlos segura uma pasta na mão esquerda e afrouxa a gravata com a mão direita. Caminha lentamente, cansado, até a sua porta.
Locutor em off
Carlos mora sozinho...
Carlos pega a chave do bolso. Antes de girar a chave, pára, pressentindo algo estranho. Vê uma luz azulada vindo por debaixo da porta.
SOM DE VOZES NO INTERIOR DE SEU APARTAMENTO
Meio curioso e assustado, gira a chave rapidinho e abre a porta de sopetão. Lá dentro, na sala, dá de cara com a TV desligada, tudo quieto. A mesa de jantar, o relógio de armário, a prateleira cheia de livros e badulaques, o sofá e as cadeiras, o aparelho de som. Tudo inerte. Carlos ouve a porta do quarto da empregada batendo. Faz cara de quem entendeu tudo. Chega até a TV, põe a mão sobre o aparelho, ainda quente, e a sua cara ganha uma expressão meio maliciosa.
Locutor em off
...quer dizer, sozinho com a empregada.
Carlos joga a pasta em cima do sofá, acaba de tirar a gravata e grita, ainda malicioso:
CARLOS
Etelvina, cheguei!
2 - INTERIOR - CORREDOR DO PRÉDIO – NOITE
Carlos está chegando em casa, vindo do trabalho. Caminha pelo corredor.
Locutor em off
Carlos gosta de morar sozinho. Da privacidade.
Carlos chega em frente a porta e pára, ouvindo vozes lá dentro e reparando na luz azulada que vem por debaixo da porta. Assim que põe a chave na fechadura, a luz se apaga e o som se cala. Carlos entra, põe a mão sobre a TV velha (quente!) e ouve passos apressados na cozinha.
Locutor em off
Só deixa a empregada morar lá porque a coitada não tem para onde ir.
CARLOS
Etelvina, é você?
A empregada aparece na entrada da cozinha, esfregando os olhos, fingindo ter acabado de acordar.
ETELVINA, bocejando
Ouvi o senhor chegar. Quer um cafezinho?
CARLOS
Escuta, se você quiser ver televisão enquanto eu não estou em casa, pode ver, não tem problema.
ETELVINA
Não precisa, não senhor. Imagina! Eu nem gosto de televisão...
3 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – NOITE
Carlos abre a porta e dá de cara com a empregada, interessadíssima na novela. Ela está sentada na pontinha do sofá, olhos arregalados, enquanto um casal se reconcilia na tela P&B à sua frente. Ela nem percebe que o patrão chegou. Carlos entra e bate a porta com força, para despertar a empregada. Etelvina, pêga no flagra, dá um pulo do sofá. Nervosa, esfregando as mãos uma na outra, se desmancha em desculpas.
ETELVINA, atropelando as palavras
Seu Carlos! O sr. Me desculpa, é que é o último capítulo da novela...e eu já terminei todo o serviço...não resisti, sabe como é...
Ah! Eu fiz aquele frango que o senhor gosta, quer que eu esquente?
CARLOS
Já disse que você pode ver televisão sossegada. Olha, eu vou tomar um banho. Termina de ver a novela e depois você esquenta a janta, tá bom?
ETELVINA
Bom, já que o senhor não se importa né.
Etelvina volta para o sofá. Carlos sai da sala, desafrouxando a gravata.
Locutor em off
Carlos é realmente uma pessoa muito boa.
4 - INTERIOR - ESCADARIA DO PRÉDIO – NOITE
Carlos sobe as escadas e caminha em direção ao seu apartamento, cansado.
CARLOS
Droga de elevador...
Locutor em off
Mas até boas pessoas têm seu limite. Dias depois, olha como estava a situação...
5 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – NOITE
Carlos entra em casa. Etelvina está toda esparramada no sofá, com uma latinha de cerveja na mão e os olhos mergulhados na tela da TV. Nem se importa com a chegada do patrão. Carlos não gosta muito da cena.
CARLOS
Etelvina!!!
ETELVINA, a contra-gosto
O quê?
CARLOS
Esquenta a minha janta, por favor.
ETELVINA
Não dá para esperar 5 minutinhos, já tá acabando a novela...
Carlos saí da sala bufando.
Locutor em off
Carlos começa a achar que a situação está saindo de controle.
6 - INTERIOR - SALA DE CARLOS - MESMA NOITE
Carlos volta para a sala, de calça de moleton e camiseta regata, enxugando o cabelo com a toalha. Pára contrariado: Etelvina ainda não desgrudou da frente da TV. Carlos chega ao lado dela. Etelvina nem repara na sua presença.
CARLOS
Etelvina, a janta!!!
ETELVINA, sem prestar atenção
Hã?
Carlos olha para a TV. Olha para Etelvina, bufa, e resolve entrar na cozinha, sem esperanças de se fazer ouvir.
Locutor em off
E agora? Carlos acaba com a festa de Etelvina? Quanto mais ele vai aguentar? A seguir cenas dos próximos capítulos..
7 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – TARDINHA
Carlos chega em casa todo esbaforido, com uma caixa enorme. Satisfeito, mostra a novidade à empregada.
CARLOS, triunfante
Etelvina, pode levar a TV para o seu quarto. Comprei uma nova para mim.
Etelvina sorri mostrando todos os dentes. Já começa a desligar a TV para levar para o quarto.
ETELVINA
Ai, não precisava, não senhor. O Senhor é tão generoso, muito agradecida...
Locutor em off
Boa, Carlos! Acho que ele se saiu bem dessa!
1 - INTERIOR - CORREDOR DO PRÉDIO – NOITE
Um corredor de prédio simples, que dá para várias portas de apartamentos. É noite, mas a luz do corredor está apagada. Carlos está chegando em casa depois de um exaustivo dia de trabalho. Sai do elevador e entra no corredor.
Locutor em off
Esse é Carlos. Ele acaba de ter um dia exaustivo de trabalho.
Carlos segura uma pasta na mão esquerda e afrouxa a gravata com a mão direita. Caminha lentamente, cansado, até a sua porta.
Locutor em off
Carlos mora sozinho...
Carlos pega a chave do bolso. Antes de girar a chave, pára, pressentindo algo estranho. Vê uma luz azulada vindo por debaixo da porta.
SOM DE VOZES NO INTERIOR DE SEU APARTAMENTO
Meio curioso e assustado, gira a chave rapidinho e abre a porta de sopetão. Lá dentro, na sala, dá de cara com a TV desligada, tudo quieto. A mesa de jantar, o relógio de armário, a prateleira cheia de livros e badulaques, o sofá e as cadeiras, o aparelho de som. Tudo inerte. Carlos ouve a porta do quarto da empregada batendo. Faz cara de quem entendeu tudo. Chega até a TV, põe a mão sobre o aparelho, ainda quente, e a sua cara ganha uma expressão meio maliciosa.
Locutor em off
...quer dizer, sozinho com a empregada.
Carlos joga a pasta em cima do sofá, acaba de tirar a gravata e grita, ainda malicioso:
CARLOS
Etelvina, cheguei!
2 - INTERIOR - CORREDOR DO PRÉDIO – NOITE
Carlos está chegando em casa, vindo do trabalho. Caminha pelo corredor.
Locutor em off
Carlos gosta de morar sozinho. Da privacidade.
Carlos chega em frente a porta e pára, ouvindo vozes lá dentro e reparando na luz azulada que vem por debaixo da porta. Assim que põe a chave na fechadura, a luz se apaga e o som se cala. Carlos entra, põe a mão sobre a TV velha (quente!) e ouve passos apressados na cozinha.
Locutor em off
Só deixa a empregada morar lá porque a coitada não tem para onde ir.
CARLOS
Etelvina, é você?
A empregada aparece na entrada da cozinha, esfregando os olhos, fingindo ter acabado de acordar.
ETELVINA, bocejando
Ouvi o senhor chegar. Quer um cafezinho?
CARLOS
Escuta, se você quiser ver televisão enquanto eu não estou em casa, pode ver, não tem problema.
ETELVINA
Não precisa, não senhor. Imagina! Eu nem gosto de televisão...
3 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – NOITE
Carlos abre a porta e dá de cara com a empregada, interessadíssima na novela. Ela está sentada na pontinha do sofá, olhos arregalados, enquanto um casal se reconcilia na tela P&B à sua frente. Ela nem percebe que o patrão chegou. Carlos entra e bate a porta com força, para despertar a empregada. Etelvina, pêga no flagra, dá um pulo do sofá. Nervosa, esfregando as mãos uma na outra, se desmancha em desculpas.
ETELVINA, atropelando as palavras
Seu Carlos! O sr. Me desculpa, é que é o último capítulo da novela...e eu já terminei todo o serviço...não resisti, sabe como é...
Ah! Eu fiz aquele frango que o senhor gosta, quer que eu esquente?
CARLOS
Já disse que você pode ver televisão sossegada. Olha, eu vou tomar um banho. Termina de ver a novela e depois você esquenta a janta, tá bom?
ETELVINA
Bom, já que o senhor não se importa né.
Etelvina volta para o sofá. Carlos sai da sala, desafrouxando a gravata.
Locutor em off
Carlos é realmente uma pessoa muito boa.
4 - INTERIOR - ESCADARIA DO PRÉDIO – NOITE
Carlos sobe as escadas e caminha em direção ao seu apartamento, cansado.
CARLOS
Droga de elevador...
Locutor em off
Mas até boas pessoas têm seu limite. Dias depois, olha como estava a situação...
5 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – NOITE
Carlos entra em casa. Etelvina está toda esparramada no sofá, com uma latinha de cerveja na mão e os olhos mergulhados na tela da TV. Nem se importa com a chegada do patrão. Carlos não gosta muito da cena.
CARLOS
Etelvina!!!
ETELVINA, a contra-gosto
O quê?
CARLOS
Esquenta a minha janta, por favor.
ETELVINA
Não dá para esperar 5 minutinhos, já tá acabando a novela...
Carlos saí da sala bufando.
Locutor em off
Carlos começa a achar que a situação está saindo de controle.
6 - INTERIOR - SALA DE CARLOS - MESMA NOITE
Carlos volta para a sala, de calça de moleton e camiseta regata, enxugando o cabelo com a toalha. Pára contrariado: Etelvina ainda não desgrudou da frente da TV. Carlos chega ao lado dela. Etelvina nem repara na sua presença.
CARLOS
Etelvina, a janta!!!
ETELVINA, sem prestar atenção
Hã?
Carlos olha para a TV. Olha para Etelvina, bufa, e resolve entrar na cozinha, sem esperanças de se fazer ouvir.
Locutor em off
E agora? Carlos acaba com a festa de Etelvina? Quanto mais ele vai aguentar? A seguir cenas dos próximos capítulos..
7 - INTERIOR - SALA DE CARLOS – TARDINHA
Carlos chega em casa todo esbaforido, com uma caixa enorme. Satisfeito, mostra a novidade à empregada.
CARLOS, triunfante
Etelvina, pode levar a TV para o seu quarto. Comprei uma nova para mim.
Etelvina sorri mostrando todos os dentes. Já começa a desligar a TV para levar para o quarto.
ETELVINA
Ai, não precisava, não senhor. O Senhor é tão generoso, muito agradecida...
Locutor em off
Boa, Carlos! Acho que ele se saiu bem dessa!
8 - INTERIOR - CORREDOR DO PRÉDIO – NOITE
Carlos chega em frente a porta e fica feliz por não ouvir o som da TV, nem ver a luz azulada por debaixo da porta.
Locutor em off
Sim, tudo volta a ser como antes na casa de Carlos.
Carlos abre a porta e entra. Fica mais satisfeito ao ver que não tem ninguém no sofá e a TV está desligada. Põe a mão sobre a TV (geladinha) e sorri, vitorioso. Anda silencioso até a porta do quarto da empregada. Ouve sons da TV e vê a luz azulada saindo de lá de dentro. Volta para a sala, joga a pasta para um canto e começa a tirar a roupa, dançando. Entre uma peça e outra, liga a TV nova, colorida. Quando esta só de cuecas, cai impávido e colosso no sofá, estica as pernas e fica assistindo ao jogo do Flamengo, feliz da vida.
Locutor em off
E viveram felizes para sempre, cada um com sua TV.
9 - INTERIOR - CORREDOR E SALA – NOITE
Carlos está pegando a chave no bolso quando ouve a voz de dois marmanjos brigando dentro do apartamento. Assustado, abre rapidamente a porta e entra de sopetão, como se estivesse pronto a brigar com os dois contendores. Mas só encontra Etelvina, que levanta envergonhada do sofá onde estava assistindo a novela.
CARLOS
Que foi? A sua TV quebrou?
ETELVINA, toda envergonhada
Não senhor...É que colorido o Vítor Fasano é tão mais bonito...
Carlos desmonta os ombros, derrotado. Desafrouxa a gravata e senta no sofá.
CARLOS, indicando o sofá
Senta aí, Etelvina, termina a novela.
Ela senta, estranhando. Os dois ficam assistindo a novela, lado a lado.
Locutor em off
E agora? Carlos aceita a situação? Põe a empregada na rua? Ou se casa com Etelvina? Afinal, como diz um amigo meu, felicidade conjugal é assistir televisão a dois.
Vemos os dois de costas. Carlos passa um braço em volta de Etelvina.
FIM
O Homem Sobre a Marquise
O HOMEM SOBRE A MARQUISE
do conto homônimo de
LUIS EDUARDO MARRA
do conto homônimo de
LUIS EDUARDO MARRA
1 - EXT. CENTRO DA CIDADE -- TARDE
Música. Créditos Iniciais
Vemos várias imagens do centro de São Paulo decorado para o Natal: Calçadas cheias de gente, lojas lotadas, vendedores ambulantes, músicos, galerias, bares, restaurantes, mendigos, viadutos, monumentos, etc.
Aos poucos vamos distinguindo um HOMEM no meio das pessoas. Aparenta cerca de 40 anos, na sua face, a simplicidade das pessoas que o rodeiam, e suas roupas não possuem nada de especial. Juntando-se à multidão deixou que ela o conduzisse, despreocupado com o caminho que seguia. Ele anda pela Praça, passa pela Catedral de São Bento e segue por uma Alameda.
Final dos Créditos
2 - EXT. FACHADA DO TEATRO MUNICIPAL -- TARDE
O HOMEM se aproxima do Teatro. Admira aquele prédio antigo, um marco da cidade. Olha para os lados e vê uma multidão de pessoas que fazem fervilhar aquele largo, com suas lojas e calçadões. Volta novamente a observar o prédio. Baixando o olhar percebe alguns funcionários trabalhando na sua fachada: um varre a escadaria, enquanto outros tentam colocar um novo cartaz. Na escadaria do Teatro algumas pessoas observam um MENDIGO que pede esmola, inutilmente, pois ninguém sequer lhe da um tostão. O MENDIGO desiste de pedir esmola e senta nos degraus, um pouco cansado. O HOMEM sobe a escadaria e percebe uma porta aberta. Os funcionários do Teatro continuam concentrados no seu trabalho do lado de fora do prédio. O HOMEM entra no...
3 - INT. TEATRO MUNICIPAL - SAGUÃO PRINCIPAL -- TARDE
O HOMEM aprecia toda a riqueza daquele lugar: a escadaria interna central, o tapete vermelho, o mármore, o imenso lustre... Continua sua caminhada por um corredor lateral, entra por uma porta, indo parar nos...
4 - INT. TEATRO MUNICIPAL - COMPLEXO BASTIDORES -- TARDE
O HOMEM passeia pelos estreitos corredores dos bastidores, entra por uma porta e sai no Palco. As luzes da platéia não estão totalmente acesas, mas o suficiente para perceber toda a beleza desta sala. Ele sai do palco e volta a caminhar pelos corredores. Vê um outro FAXINEIRO limpar o chão de um vestuário. Continua a caminhada e sai por uma porta, voltando para o...
5 - INT. TEATRO MUNICIPAL - SAGUÃO PRINCIPAL -- TARDE
Atravessa o saguão principal e sobe as escadas em direção ao anfiteatro.
6 - EXT. TEATRO MUNICIPAL - MARQUISE E FACHADA -- TARDE
O HOMEM se aproxima da bancada da Marquise. Sobre a marquise do Teatro Municipal, mais ou menos a altura de três andares, aparece o HOMEM, e fica na beira do piso, quase caindo. Na praça, as pessoas que notam o suspeito suicida param e passam a observá-lo, enquanto o HOMEM ensaia alguns gestos para pular. O número de olhares curiosos aumenta com as pessoas que chegam de todas as direções. Ouve-se um...
MURMURIO DE PALPITES E COMENTÁRIOS
A RESPEITO DO HOMEM SOBRE A MARQUISE
Que continua a ensaiar os gestos para pular.
7 - EXT. TEATRO MUNICIPAL - PRAÇA RAMOS DE AZEVEDO -- TARDE
Uma MULHER CRENTE, no meio das pessoas, ergue uma bíblia e grita:
MULHER CRENTE
Desça daí irmão, em nome de Jesus!!!
Segue-se um silêncio.
O silêncio é interrompido pela
SIRENE DE UM CARRO DE POLÍCIA
Um POLICIAL sai do carro e adverte o suicida:
POLICIAL
Desce daí cidadão!!!
Logo em seguida se aproxima um LÍDER SINDICAL:
LÍDER SINDICAL
Companheiro!!! A hora é de luta e não de fazer loucura!!!
Seu discurso ganha aplausos de todos. O LÍDER SINDICAL se sente motivado para continuar, mas um OFFICE-BOY de passagem solta um forte assobio e lhe toma a vez:
OFFICE-BOY
Cai fora daí, mano!
Surgem mais assobios, inclusive dos MENINOS DE RUA do outro lado da calçada. Se aproxima um EXECUTIVO, de terno e gravata, trazendo uma fina maleta de couro e relógio de ouro brilhando no pulso.
EXECUTIVO
Tenha bom senso, meu homem, e pelo amor dos nossos filhos, desça daí!!!
Tira do bolso um cartão e estende ao HOMEM:
EXECUTIVO
Nem tudo está perdido!!! Se o seu problema é trabalho, desça agora!!!
As pessoas aplaudem o gesto do EXECUTIVO.
APLAUSOS
O EXECUTIVO permanece com o braço estendido segurando o cartão. Ao perceber que seu gesto não surtiu nenhum efeito no suicida, guarda o cartão de volta no bolso e olha para as pessoas, um pouco frustrado.
Mas o HOMEM sobre a marquise continua observando calado o seu público.
8 - EXT. TEATRO MUNICIPAL - PRAÇA RAMOS DE AZEVEDO -- TARDE
No meio das pessoas aparece um homem público, um EDIL, que vem chegando abrindo espaço e cumprimentando todos com um sorriso cordial.
EDIL
Boa tarde... Como vai o senhor... Muito prazer... Olá... Com licença...
Para e se volta para o HOMEM no edifício:
EDIL
Meu jovem brasileiro, em nome do povo deste país, pela Nova República e pelo nosso futuro, eu te peço: desça daí e venha cá me dar um abraço!!!
NOVOS APLAUSOS
No meio destes aplausos, surge a voz rouca de um BÊBADO, mal acordado e apoiado num poste de luz:
BÊBADO
Desça que o Brasil é nosso!!! Vamos lá, desça que o Brasil é nosso!!!
Chega uma mulher bela e elegante, uma SECRETÁRIA, e diz com sua voz delicada:
SECRETÁRIA
A vida é bela! Acredite, a vida é bela! Desce daí e vamos comer um lanche aqui no McDonald’s.
Um camelô sai de sua barraca e indicando seu negócio diz para o suicida:
CAMELÔ
Também não se esqueça do mundo maravilhoso das compras e que a minha barraca estará aberta até depois da meia-noite, com preços incríveis!!!
Aparece agora, quase do nada, um PAPAI NOEL, carregando um saco cheio nas costas:
PAPAI NOEL
É Natal! Pense no menino Jesus! Renove o seu espírito nesta data. Feliz Natal! Feliz Natal pra todos!
APLAUSOS ESPARSOS
Neste momento passam correndo os meninos de rua e lhe roubam o saco das costas. No gesto o saco se abre e sai todo o conteúdo: um montão de bolinhas de jornal. PAPAI NOEL sai correndo atrás dos MENINOS DE RUA que fogem se divertindo com a cena.
Desviando, meio trôpego, dos garotos vem o BOÊMIO, vestido com terno e sapatos brancos, gravata vermelha e uma flor no bolso aproximando-se por entre a multidão:
BOÊMIO
Meu amigo desça daí que tudo acaba dando certo. Todos nós sabemos disso. Deus é brasileiro!
Uma tímida SOLTEIRONA. Mulher madura, meio gorda e trazendo um livro esotérico debaixo do braço, respira fundo, toma coragem e diz:
SOLTEIRONA
Confie na ajuda dos anjos e dos duendes. Acredite, tenha fé, e eles vão te ajudar!
Ao seu lado, um homem meio misterioso, um ASTRÓLOGO, também toma coragem e solta:
ASTRÓLOGO
Júpiter em conjunção com Vênus e Marte anunciam um período positivo para todos nós. Desça daí que eu lhe faço um mapa astral! Em poucos minutos lhe provarei que o senhor há de vencer na vida!
Tira vários cartões do bolso e distribui para as pessoas ao seu redor:
ASTRÓLOGO
Faço mapa astral. Respondo a todas as perguntas do passado, presente e futuro. Obrigado. Obrigado.
Uma CIGANA de vestido rubro e amarelo aproveita a situação e também se oferece ao suicida:
CIGANA
Saia daí que eu leio a sua mão de graça!
Um ADVOGADO, com boa aparência, trajando esporte fino, diz:
ADVOGADO
Procure sempre vencer na vida pelo estudo!
Um outro CAMELÔ lhe dá uma resposta:
CAMELÔ
Mas os que não podem estudar devem levar vantagem de qualquer outro jeito!
E uma SOLDADA do Exército da Salvação diz a sua:
SOLDADA
Busque o Exército da Salvação! Busque o Exército da Salvação!
E agora um homem com uma pasta embaixo do braço, vestido com um terno de segunda e camisa branca amassada, um típico vendedor de seguros:
VENDEDOR DE SEGUROS
Porém nunca deixe de confiar no otimismo e no pensamento positivo!
Passa um jovem meio careca e de rabicho, enrolado num sari vermelho, vendendo incenso: um Hare Krishna.
HARE KRISHNA
Junte-se aos Hare Krishna! Junte-se aos Hare Krishna!
O Negociante de bilhetes lotéricos, ao lado de um idoso que carrega um cartaz anunciando a compra de ouro, também diz:
NEGOCIANTE LOTÉRICO
Um dia o senhor terá a chance de ganhar na sena. Quem sabe, meu amigo, quem sabe você será um homem rico?
E o poeta:
POETA
Não se entregue, jamais! Lute até o fim. A vida lhe mostrará um novo caminho e um novo amor florescerá... Desencanta e a vida pois canta!
E o padre, seguido de alguns crentes com suas bíblias e duas freiras segurando dois longos rosários pretos:
PADRE
Siga o caminho da igreja!
Segue-se então várias sugestões, palpites e conselhos, em frases breves, das várias pessoas que ainda não tinham dito nada.
As linhas a seguir são ditas simultaneamente, num crescendo gradual. Conforme os sentimentos aumentam, cresce a excitação entre o público.
DIVERSAS PESSOAS
Seja espírita!
Seja vegetariano!
Arrisque na bolsa!
Faça meditação!
Tente a loteria!
Lembre-se do poder mágico das pirâmides!
Sintonize-se com os cristais magnéticos!
Se ligue na energia cósmica!
Fume um belo baseado!
Procure seu sonho pessoal!
Abra uma poupança!
Tenha confiança na previdência!
Não seja otário!
Tudo acaba em Pizza!
No final tem sempre Carnaval!
As palavras de toda a multidão se misturam e já não é mais possível compreender nada. É nesse momento que baixa um misterioso silêncio em toda a "platéia".
PAUSA...
Então passa-se a ouvir um uníssono:
TODOS
Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce! Desce!
9 - EXT. TEATRO MUNICIPAL - MARQUISE E FACHADA -- TARDE
O HOMEM suicida parece bastante indiferente a todo aquele estardalhaço, mas à medida que o barulho aumenta, seu olhar vai ficando mais profundo, e na sua face percebemos a vontade de falar. Até que então ele se pronuncia:
HOMEM
Estou desempregado e com fome.
Ao verem o HOMEM que tenta falar, as pessoas se calam. Ele toma coragem novamente e repete, desta vez com mais força:
HOMEM
Estou desempregado e com fome!
As pessoas se olham entre si. Então, o líder sindical se manifesta:
LÍDER SINDICAL
Que não seja por isso companheiro. Aqui estou sem emprego há um ano, tenho três filhos e falta até arroz e feijão na mesa.
Após escutar atentamente ao que lhe disseram, o HOMEM prossegue:
HOMEM
Minha mulher me traiu.
Ouve-se um burburinho, talvez alguns comentários maldosos, outros sarcásticos, e até mesmo cruéis. O advogado toma coragem, dá um passo à frente e:
ADVOGADO
Também não seja por isso, ó desfortunado corno aí de cima, pois a minha mulher - e vou falar agora toda a verdade - minha mulher fugiu com meu sócio. No entanto eu estou aqui, e na luta, como disse o companheiro do meu lado. Não é isso, companheiro?
O líder sindical assente com a cabeça. O HOMEM sobre a marquise continua:
HOMEM
Estou doente, fui mal atendido nos hospitais públicos e acabei desenganado pelos médicos.
Um senhor magro e pálido, de setenta anos, aponta sua bengala para um paralítico que pede esmolas e acrescenta:
SENHOR DA BENGALA
Aqui tem doente pra encher um hospital.
Aponta a bengala para várias pessoas pálidas. E depois arregaça sua calça e exibe uma enorme ferida aberta. O HOMEM sobre a marquise não se impressiona:
HOMEM
Fui roubado quando chegava na minha casa. Me bateram sem piedade.
Um motorista de ônibus uniformizado lá do fundo se manifesta:
MOTORISTA DE ÔNIBUS
Fui assaltado dentro de casa e espancaram minha família!
HOMEM
Fui humilhado pela polícia quando uma vez me prenderam como bandido.
BOÊMIO
Isso não é nada! Eu fui tomado como traficante e me deram coronhadas na cabeça.
O HOMEM faz um gesto suave e sussurra com entonação grave:
HOMEM
Um dia tive que pedir esmola.
UM VELHO
Mas eu não tive ao menos coragem para fazer isso e passei fome.
HOMEM
Um outro dia senti que tinha ficado louco.
UM INDIVÍDUO
E eu já fui parar num hospício!
UM OUTRO INDIVÍDUO
E eu vivi num hospício por um bom tempo!
UMA VOZ (off)
Porém eu...
(explode em gargalhada)
Todos se voltam para a direção de onde vem a gargalhada. Um tipo curiosamente andrajoso e arrastando uma folha de jornal presa a um barbante pula como um saltimbanco desengonçado. É o LOUCO.
LOUCO
Eu sou louco de pedra desde que me conheço.
Todos riem.
10 - EXT. TEATRO MUNICIPAL - MARQUISE E FACHADA -- TARDINHA
Nesse momento o HOMEM sobre a marquise parece adquirir uma força diferente, ele fica mais aprumado, ereto e vistoso. Olha analítico para toda a multidão, que continua rindo.
HOMEM
E o louco ri de si mesmo.
Todos se calam. Faz-se silêncio diante do HOMEM sobre a marquise.
HOMEM
O outro está orgulhoso de ter morado num hospício!
Nesse momento faz-se um silêncio absoluto.
HOMEM
Alguém aí foi roubado, espancado e humilhado, e mesmo assim continua como antes! Quem foi que disse que tem doente aqui pra encher um hospital? Mas os hospitais já estão cheios! Cheios de médicos ignorantes, desinformados e incompetentes!
Alguns canais de televisão já chegaram, tentam se posicionar para melhor captarem a imagem e transmiti-la ao vivo.
HOMEM
E todos nós continuamos vivos. E todos nós continuamos a ser aquilo que sempre fomos. Eu! Eu sou aquilo que sou neste momento! Eu sou este momento breve!...
Todos olham calados e com estupor para o HOMEM.
HOMEM
Não sou aquilo que vocês vêem!... Eu sou vocês!
11 - EXT. TEATRO MUNICIPAL. MARQUISE E FACHADA -- ANOITECER
O silêncio é interrompido somente pelo barulho de uns holofotes que se acendem, pois o sol já está se pondo. O HOMEM protege sua vista dos holofotes com a mão.
As pessoas continuam a olhar a cena com estupor.
O HOMEM, incomodado com as luzes, retira do bolso um pote. De dentro do pote apanha creme de maquiagem e passa pelo rosto. Depois ele pega um pente de outro bolso e penteia o cabelo. Passa gel fixador. Arruma a gola da camisa, tira o pó do paletó. Agora vemos um homem diferente, limpo, arrumado. Ele fica ereto, bonito. Com essa sua pose ele passa seu olhar por todas as pessoas presentes.
Aos poucos vai se escutando um zumbido. Zumbido este que vai crescendo. Primeiro sem sentido nenhum, parecendo uma série de barulhos desconexos. Mas depois já se pode escutar algumas palavras sendo entoadas. O barulho primeiro atinge os presentes, mas à medida que fica mais forte, atinge as ruas e praças vizinhas, como um contágio universal, chegando então às televisões dentro das casas por todo o país. As palavras começam a se repetir e se ampliar e passam a tomar conta de todos os espectadores que, em cada lar, antecipavam preparativos diversos para a véspera de Natal. Todos se mexem nas suas poltronas ou cadeiras, ou - no caso dos mais humildes - se movem em suas caixas e caixotes e sob tetos de zinco. E todos, numa indistinção de classe, elevam os corpos num entusiasmo explosivo, para cima e para baixo, num torcer frenético, quase alucinado, numa ação repetida e insistente... Então vai subindo e subindo, em direção à marquise, a força de um uníssono estridente. E agora podemos entender perfeitamente o que as pessoas gritam juntas:
MULTIDÃO
Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula! Pula!...
FIM
O Retrato
"O RETRATO"
Roteiro Original
escrito por PAULO OLIVIE
Roteiro Original
escrito por PAULO OLIVIE
01 - INTERIOR - DIA -- APARTAMENTO
Música. Créditos Iniciais.
No Interior de um apartamento, numa região de classe média da cidade, há diversos quadros armados em cavaletes, encostados no chão, na parede. Um bonito móvel de madeira provençal guarda livros, roteiros de filmes e peças teatrais. Carlos passa pela sala procurando algo, retira uma carta que está dentro de uma antiga agenda e sai. Ouve-se o ruído de seus passos pela escada. Pela janela do apartamento, no segundo andar de um antigo prédio o vemos entrar em seu carro. Segue pela rua deserta.
02 - EXTERIOR - DIA -- CIDADE DE SÃO PAULO
Música. Créditos Iniciais.
No Interior de um apartamento, numa região de classe média da cidade, há diversos quadros armados em cavaletes, encostados no chão, na parede. Um bonito móvel de madeira provençal guarda livros, roteiros de filmes e peças teatrais. Carlos passa pela sala procurando algo, retira uma carta que está dentro de uma antiga agenda e sai. Ouve-se o ruído de seus passos pela escada. Pela janela do apartamento, no segundo andar de um antigo prédio o vemos entrar em seu carro. Segue pela rua deserta.
02 - EXTERIOR - DIA -- CIDADE DE SÃO PAULO
Plano Geral da cidade, movimentada. Carlos dirige ouvindo sua banda preferida. O carro segue por algumas quadras até estacionar em frente a uma galeria de arte. Ele desce, fecha a porta e olha para os quadros expostos no hall de entrada. Entra.
Logo depois uma FUNCIONÁRIA retira um retrato e entrega a Carlos.
Final dos créditos.
03 - EXTERIOR - DIA -- APARTAMENTO DE CARLOS
Estaciona em frente ao seu apartamento. Sai retirando as coisas do banco traseiro do carro.
04 - INTERIOR - DIA -- APARTAMENTO DE CARLOS
Ao abrir a porta percebe que o rádio está ligado e alguns ruídos vindos da cozinha denunciam a presença de alguém. Ele deixa suas coisas num canto da casa, abaixa o volume do rádio e reconhece uma bolsa feminina.
- Nós não havíamos marcado para amanhã?
LUÍSA (na cozinha).
- Não, é hoje. Eu não acredito que você esqueceu.
- Não dá pra deixar para amanhã?
Luísa aparece. Ela acabou de completar 21 anos. Seus cabelos negros e lisos estão soltos sobre seus ombros, sua pele levemente bronzeada contrasta com seus lindos olhos. Luísa veste uma calça jeans preta e uma bota da mesma cor, sua camiseta é muito decotada e nos revela o seu colo nu. Ela se parece com a mulher retratada no quadro, que Carlos acabou de comprar.
- Não, não posso. Amanhã viajo a trabalho.
03 - EXTERIOR - DIA -- APARTAMENTO DE CARLOS
Estaciona em frente ao seu apartamento. Sai retirando as coisas do banco traseiro do carro.
04 - INTERIOR - DIA -- APARTAMENTO DE CARLOS
Ao abrir a porta percebe que o rádio está ligado e alguns ruídos vindos da cozinha denunciam a presença de alguém. Ele deixa suas coisas num canto da casa, abaixa o volume do rádio e reconhece uma bolsa feminina.
- Nós não havíamos marcado para amanhã?
LUÍSA (na cozinha).
- Não, é hoje. Eu não acredito que você esqueceu.
- Não dá pra deixar para amanhã?
Luísa aparece. Ela acabou de completar 21 anos. Seus cabelos negros e lisos estão soltos sobre seus ombros, sua pele levemente bronzeada contrasta com seus lindos olhos. Luísa veste uma calça jeans preta e uma bota da mesma cor, sua camiseta é muito decotada e nos revela o seu colo nu. Ela se parece com a mulher retratada no quadro, que Carlos acabou de comprar.
- Não, não posso. Amanhã viajo a trabalho.
- O.K.! Vamos lá. É melhor acabar logo com isto.
05 - INTERIOR - TARDINHA – APARTAMENTO
A linda Luísa está sentada em um banquinho, seu corpo está nu da cintura para cima. No rádio ouvimos um lindo solo de saxofone.
UMA MÃO DESENHA NA TELA
Nela podemos ver um esboço de um corpo feminino com suas formas já quase definidas. Ele passa levemente o pincel, e começa a pintar. Percebemos que não é Luísa que Carlos está retratando, é uma outra mulher que, apesar da semelhança, exibe traços mais adultos e uma marca no corpo que não existe no corpo de Luísa.
O celular toca. Toca várias vezes até que ela o interrompe.
- Atende cara. Atende essa porcaria pra mim!
Ele não lhe dá atenção. Luísa então se levanta e atende o celular, já mudo.
- Eu to esperando uma ligação de meu agente, espera um pouco que eu vou ligar pra ele.
- Agora não, volta para sua posição, por favor.
O celular não toca mais, para alegria de Carlos que termina logo o retrato.
- Pronto, acabou!
- Me deixa ver como ficou?
- Não. Ainda não, me deixa finalizar o quadro e te mostro.
- Mais você disse que acabou. Por que eu não posso ver a porcaria de meu retrato.
- Calma Luísa. Agora me deixa sozinho, por favor. Depois eu te ligo, ta legal.
Luísa se veste, pega sua bolsa, seu maço de cigarros.
- Até mais!
E sai da casa.
06 - INTERIOR - MANHÃ -- APARTAMENTO DE CARLOS
O celular toca. Carlos atende.
- Alô.
07 - INTERIOR – MANHÃ – RESTAURANTE
Lúcio está falando sentado a mesa de um café. Ele e Carlos são amigos desde a época do colégio público na periferia da cidade.
- E aí Carlinhos, a Cláudia esta dando uma festa hoje e pediu pra te convidar.
- Não, sem festas hoje.
- Ta bom, depois você me responde. Precisamos conversar sobre a exposição. Até mais tarde!
08 - INTERIOR - DIA -- GALERIA
Lúcio fica surpreso ao passar pelo hall e sentir a falta do retrato do Carlos. Chama Carol, sua secretária.
- Cadê o retrato do Carlinhos, alguém comprou?
- Não. O Carlos entrou aqui, pediu o retrato e foi embora sem falar nada. Liga pra ele depois.
- Mais eu acabei de falar com o cara, ele não me disse nada.
- Sei lá, ele é super estranho. Você conhece bem a figura.
- Ta legal, à noite eu falo com ele. Hoje tem festa na casa da claudinha, ela pediu pra te convidar.
Carol faz um gesto afirmativo com a cabeça e continua seu trabalho.
09 - INTERIOR - NOITE -- CASA EM REGIÃO NOBRE DA CIDADE
No amplo jardim da casa uma banda começa a tocar. Primeiro uma gaita, depois uma guitarra, um baixo e uma bateria. Estamos na festa da Cláudia, que está rolando já há algum tempo. Todos já meio bêbados, com suas vozes confusas, falam ao mesmo tempo sobre futebol, cinema, mulheres, homens, etc.
10 - INTERIOR - MADRUGADA -- APARTAMENTO
O caminhão de limpeza pública vem recolhendo o lixo deixado nas calçadas das casas e prédios. Carlos observa a sua aproximação pela janela. O apartamento onde Carlos mora não é muito grande, mas tinha espaço suficiente para montar ali seu pequeno Atelier. A primeira impressão que se tem ao entrar é de uma tremenda bagunça, cheiro de tinta, paredes manchadas, cavaletes e quadros espalhados por toda a parte. Seu Notebook está ligado e conectado a internet, ouvindo uma radio online. Vira-se e abaixa o som, anda pela casa procurando algo. Desliga o aparelho, vai em direção à porta e sai.
11 - EXTERIOR - MADRUGADA -- FESTA DA CLÁUDIA
Estaciona em frente à casa de sua amiga Cláudia. Desce do carro e hesita em entrar. Decide ir.
12 - INTERIOR - NOITE -- FESTA DA CLÁUDIA
Uma garota muito bonita atende a porta, abrindo-a para Carlos. Um grande relógio na entrada mostra que já passam das três.
13 - INTERIOR - MADRUGADA -- FESTA
A banda, já meio cansada ensaia um dueto entre o guitarrista e o gaitista. Tocam um Folk triste, tipo Elliot Smith. A música cria uma atmosfera intimista. Carlos escuta a música com atenção, encostado num canto da casa. Olha ao redor e vê Lúcio vindo em sua direção.
- Que bom que você apareceu. O que ta acontecendo? Você tirou o quadro lá da galeria sem me avisar, não pode fazer isso! Tinha gente querendo comprar.
- Ainda bem que você não vendeu, tenho que fazer umas alterações, tive algumas idéias e quero colocar em prática.
- Ta legal, mas se apressa cara, pois tem uma exposição daqui a dois meses, preciso expor seus trabalhos.
Lúcio, que já está um pouco embriagado, abraça Carlos.
- Esquece o trabalho agora, vamos beber alguma coisa.
Leva Carlos até o bar e pede para o garçom servi-los.
- Olha lá a Luísa. Ela ta linda e sempre foi caidinha por você.
- Ela está mesmo linda hoje.
Luísa que está rodeada de amigos está vestindo um lindo costume preto, com detalhes em branco. Sorri descontraída e deliciosamente embriagada. Sua expressão e seus movimentos misturam ingenuidade juvenil e maturidade sexual. Os homens adoram estar ao seu lado.
- Só um minuto Lúcio, vou lá falar com ela.
Sai em direção a Luísa.
- Desculpe-me por ontem à noite.
- Tudo bem, cara. Eu já te conheço e não me preocupo mais com isso. Eu só não consegui entender
por que não posso ver o retrato.
- Um outro dia você poderá ver.
Luísa (se afastando dos amigos).
- Bom, eu não quero falar sobre isso agora, não to muito bem.
- O que aconteceu?
LUÍSA (irritada)
- Logo depois que eu deixei sua casa, meu agente me ligou dizendo que havia convidado a Bruna pro comercial. Depois me perguntou onde eu estive a tarde toda. Olha lá ele, dançando bêbado que nem um palhaço.
- Calma Luísa. Vamos até o bar beber um uísque. Você ta linda hoje.
Luísa sorri.
- Você também ta muito bonito. Que tal irmos para sua casa. Esta festa já acabou, só tem bêbado e drogado por aqui.
- Depois. Vamos nos divertir um pouco. Daqui a pouco a gente vai, ta bom.
Os dois duelistas ainda tocam, as pessoas nem prestam mais atenção. O gaitista lidera a parceria realizando um lindo solo. Eles afastam alternadamente seus instrumentos do microfone, causando um incrível efeito com a sonoridade. A música é densa e parece ser a única coisa interessante na festa. No bar, diversos quadros de jazzistas e bandas de rock enfeitam a casa. Carlos e Luísa bebem e sorriem no balcão.
14 - INTERIOR - AMANHECER -- APARTAMENTO DE CARLOS
Carlos e Luísa transam em seu Atelier, onde estavam ontem à tarde. Carlos beija seu corpo, suas coxas, seus seios. A garota suspira, embriagada e muito excitada, depois daquela festa cheia de gente chata ao seu redor. Seguem-se as carícias, Luísa beija sua boca com força, faz biquinho, passa a mão nos seios e senta gostoso no pau de Carlos. Seu rosto está transfigurado de prazer, solta gemidos, gritos. A casal esta em total liberdade, num êxtase de prazer.
15 - INTERIOR - CINEMA NA RUA AUGUSTA -- NOITE
Carlos chega no hall da sala de cinema, observa os horários dos filmes e percebe que está atrasado. Vai rapidamente até a bilheteria. No interior da sala, parcialmente vazia, ele procura um lugar no centro para melhor ver o filme. Escolhe um local quase na frente da platéia e senta-se. Ainda podemos ver os créditos iniciais na tela.
Assiste atentamente uma interessante seqüência, onde um garoto conta uma ridícula estória a um outro, que ouve sem muita atenção. Ao lado de Carlos uma garota o observa.
16 - INTERIOR - HALL DA SALA DE CINEMA -- NOITE
As portas da sala se abrem e diversas pessoas saem.
COMENTÁRIOS SOBRE O FILME...
Carlos passa por entre as pessoas, vai até um canto e acende um cigarro. Uma linda garota morena se aproxima e pede fogo para Carlos.
17 - INTERIOR - HALL DA SALA DE CINEMA
Carlos ainda está sentado, dá a última tragada e joga fora o cigarro. O hall da sala está quase vazio. Ele observa a garota que havia lhe pedido fogo conversando com um casal de amigos num outro canto. Linda, cabelos castanhos cumpridos e cacheados, olhos amêndoa, vestindo uma mini-saia jeans, uma camisa branca decotada com uma blusa vermelha nas costas. Carlos ouve sua conversa e percebe um sotaque carioca. De repente ela olha para ele que desvia seu olhar observando um cartaz, logo depois a garota se aproxima.
- Oi, Você não tava na festa do MAX?
CARLOS(curioso)
- MAX. Ahhh! Quando foi mesmo a festa?
- Sexta-feira passada.
Os dois ficam em silêncio por alguns segundos.
GAROTA (tomando a iniciativa)
- Meu nome é Daniela, mas pode me chamar de Dani.
- Carlos. Gostou do filme?
- Gostei, e você?
- Muito! Achei genial.
- Eu to com dois amigos. Que tal a gente tomar um café?
18 - INTERIOR - BAR -- NOITE
Paulo, Dani e o casal de amigos bebem uma cerveja num bar ao lado do cinema. Dani e os amigos conversam sobre a universidade. Paulo olha para as coxas lindas da garota, percebe o contorno de sua boca, seus ombros nus, seu decote. Há uma atmosfera de desejo presente. Ela percebe o olhar de Paulo.
19 - EXTERIOR - RUA AUGUSTA -- NOITE
Os quatro seguem pela rua Augusta um pouco embriagados, param numa esquina no centro da cidade. Paulo e Dani descem e entram em um prédio.
20 - INTERIOR - APARTAMENTO -- NOITE
Dani e Paulo transam no sofá da sala. Apesar do pouco tempo que se conhecem, a cena é forte e apaixonada.
21 - INTERIOR - APARTAMENTO DE CARLOS -- DIA
Carlos chega em casa, abre a porta e deixa suas coisas em cima do sofá. Observa a luz da secretária eletrônica piscando. Vai até o aparelho para ouvir o recado.
- Carlos, é a Dani. Éhhh! eu liguei agora pra casa da rua, e minha mãe me disse que eu havia recebido flores...Imaginei que tivesse sido você.
PAUSA
- Brigada. Ahhhhh! Eu te ligo quando chegar em casa. Por favor, não liga lá em casa não, depois eu te explico por que, ta...espera minha ligação, por favor.
UM BEIJO...TCHAU
Carlos volta à fita e escuta o recado novamente. Seu rosto está tranqüilo, radiante. Solta um leve sorriso.
22 - INTERIOR - MADRUGADA -- BAR NO CENTRO DA CIDADE
No interior do bar casais namoram, um grupo de amigos juntam as mesas e se sentam falando alto. Uma garota seleciona sua música preferida na máquina de som (jukebox), enquanto alguns músicos se posicionam para começar o show. De repente, alguém desliga a máquina, para irritação da garota que estava ouvindo atentamente sua música. Os músicos afinam os instrumentos, logo depois se ajeitam num canto da casa. Começam a tocar.
A porta do bar se abre, e um vento gelado envolve as pessoas sentadas próximas da entrada. Fazia muito frio naquela noite. Carlos entra, observa rapidamente as pessoas, e se senta no balcão.
CARLOS (olhando o cardápio)
- Uma Guinnes, por favor.
A bebida chega rapidamente, enquanto um homem de terno e gravata cumprimenta Carlos, era Sérgio, o gerente da casa.
- E aí Carlinhos, você sumiu meu amigo.
- Pois é eu tava viajando.
- Vida boa essa tua, viagens, modelos gostosas. E pensar que a gente jogava bola naquele campinho de terra. Bons tempos, você não acha?
- Eta Sérjão, sempre lembrando do passado. Banda nova na casa?
- É! moçada boa. Faz um som bem legal, você vai gostar. A vocalista então, além de louca é ninfomaníaca e adora cheirar aqui no banheiro da casa. Já dei vários flagrantes nela.
Sérgio se afasta para receber os clientes, enquanto Carlos bebe sua cerveja, olhando para a banda que começa a tocar.
A garota tinha mesmo uma linda voz e um estilo meio próprio de se comportar no pequeno palco improvisado. Neste momento a banda está executando uma música de sua autoria, o guitarrista manda ver no solo. Os freqüentadores do bar já estão bastante excitados a essa hora da noite. Carlos ouve a música com atenção.
23 - INTERIOR - BAR -- MADRUGADA
Carlos pede outra Guinnes, até esqueceu a Dani, que não veio como haviam combinado. Num banco no canto do bar a vocalista da banda o observa, bebendo uísque. Ele percebe o flerte e retribui. Carlos já está um pouco embriagado, o que facilita a sua aproximação da garota.
- Oi, podemos conversar?
- Claro. Senta aqui perto.
Ao sentar-se, Carlos observa as lindas coxas da garota, que tava com uma saia bem curta. Ela percebe seu olhar e retribui com um lindo sorriso.
- Me chamo Carlos, tudo bem.
- Tudo. Patrícia.
- Gostei do som de vocês, adoro rock, folk e algumas estranhices também.
- Obrigada. A gente ta gravando um álbum, ainda faltam algumas músicas.
- Que ótimo, me manda umas músicas por e-mail. Posso divulgar o trabalho de vocês.
- Mando sim. Eu te vi conversado com o Serginho. São amigos?
- Sim, a gente se conhece a um tempão. Ele que me apresentou o bar.
- O pessoal daqui é super legal, tão dando a maior força pra banda. E olha que a gente ta precisando de uma motivação. Sabe como é, primeiro trabalho, todo mundo fica meio excitado, querendo fazer o melhor. É bacana pela grana também, eles pagam direitinho e a casa vive lotada.
- A boa música também ajuda a manter o público, o pessoal daqui não é bobo, sabem como ganhar dinheiro com o bar.
Carlos olha atentamente para a sua boca, seus traços delicados, sua maneira educada, mas um pouco agitada de falar. Parece ser bem inteligente e articulada.
- A gente tem que voltar. No intervalo a gente conversa mais.
Levanta-se e vai ao banheiro, enquanto músicos afinam os instrumentos.
24 - INTERIOR - RUAS DA CIDADE -- AMANHECER
Carlos e Patrícia chamam um táxi, a esquina do bar já estava movimentada aquela hora com as pessoas indo ao trabalho.
25 - INTERIOR - APARTAMENTO DE CARLOS -- AMANHECER
O relógio marca 06h15, ouvimos passos se aproximando da porta, que se abre. Carlos entra acompanhado da garota. Ela se senta no sofá.
Carlos (indo em direção ao banheiro)
- Fique a vontade, sirva-nos uma bebida, por favor. Tem cerveja na geladeira.
Patrícia olha curiosa as telas num canto da casa, enquanto enche dois copos de Bourbon.
GAROTA (se aproximando do banheiro)
- Seus retratos estão ótimos. Quem é a garota?
SILÊNCIO
No interior do banheiro Carlos está vomitando no vaso. Levanta-se e olha no espelho. Lava o rosto, escova os dentes e abre a porta segurando uma toalha.
- Uma boa amiga.
- Parece ser mais do que isso. Seus retratos são densos, como se cada um tivesse uma importância própria, uma força interior.
- Nossa! Não sabia que era crítica de arte.
- Estudei Arte, além de Música.
- Você tem um lindo rosto, adoraria retrata-la um dia desses.
Carlos de aproxima-se de Patrícia. Ela lhe oferece o copo cheio de cerveja, Carlos finge beber, logo depois deixa o copo numa mesa suja de tinta a óleo.
- Vamos ouvir um pouco de música.
Liga o computador e procura alguma coisa boa para ouvir.
26 - INTERIOR - APARTAMENTO -- MANHÃ
O despertador toca o alarme. Carlos acorda. A garota nua a seu lado continua dormindo. Parte do lençol caiu no chão, deixando metade de seu lindo corpo à vista. Ele observa suas costas, pernas, coxas.
- Nossa! Que delícia de garota.
Levanta-se, veste um Hobby e vai em direção à cozinha fazer um café. Minutos depois ela aparece, vestindo sua camisa azul. Seus cabelos, pretos e curtos, estão meio dessarumados, mesmo assim ela continua linda. Vai em sua direção e lhe dá um beijo.
- Adorei ontem. Você mandou bem. Deve ter um monte de garotas a fim de você.
- Tem nada. Esse apartamento ta sempre vazio, passo um tempão sozinho aqui.
- Ta bom. Que cheirinho gostoso!
- Vamos tomar um café. Vou pegar as torradas e a geléia. Quer um pouco de leite.
- Não, prefiro puro.
- Fica a vontade gata.
Ela se serve do café fresquinho, enquanto ele observa seus movimentos. Senta-se e cruza as pernas, está sem calcinha. Carlos, depois de colocar a torrada e geléia na mesa, começa a beijar sua boca, depois abre a camisa e beija seus seios, descendo ate seu sexo.
Transam ali na cozinha.
- Você é mesmo uma delícia.
27 - INTERIOR - APARTAMENTO -- TARDE
Luísa sobe as escadas em direção ao apartamento de Carlos, põe sua cópia da chave da fechadura e percebe a porta aberta. Já no interior, ouve o barulho do chuveiro. Observa as telas meio descobertas pelo pano branco.
OLHA CURIOSA PARA AS TELAS
- Estranho, ele nunca deixou os retratos assim, tão expostos.
Segue-se um silêncio por alguns segundos até que ela não resiste e começa a descobrir as telas uma a uma. A impressão que se tem é que o mesmo rosto foi desenhado várias vezes, numa seqüência cronológica. A última tela revela um rosto diferente, inacabado, indefinido. A mulher retratada tem traços bem diferentes aos de Luísa, que se olha no espelho. Carlos sai do banheiro e a observa no meio da sala.
- O que você esta fazendo aqui uma hora dessas?
Percebe as telas descobertas. Luísa olha para Carlos, assustada.
Carlos
- Foi você que fez isso?
Ela fica em silêncio. Carlos pergunta novamente, em voz alta. Luísa faz um gesto de afirmação.
- Por quê? Puta que o pariu, sabe que eu não gosto que espiem minhas coisas?
- Me desculpe, eu vou cobri-las novamente.
- Faça isso, por favor.
- Isso mesmo, eu tava espiando. Mas me explica uma coisa: Quem é essa mulher retratada, eu é que não sou.
- Isso é arte e não fotografia 3x4.
- Não precisa tirar onda comigo. Tudo bem.
- Não enche, acho melhor ir embora.
- Calma Carlos, eu vim aqui pra te ver, estava com saudades. Faz tempo que você não me liga.
- Eu tava meio ocupado com a exposição. Começa daqui a dois dias e ainda não finalizei o último retrato. Ando meio por baixo, sem vontade de pintar.
- O que houve?
- Depois eu te digo. Desculpe minha ignorância, ando meio irritado. O que acha de ir ao cinema comigo. Depois a gente conversa, estica a noite num bar. Tenho o dia livre e quero encher a cara.
28 - EXTERIOR - ATELIER -- TARDE
Carlos sai do Atelier segurando um quadro acompanhado de Lúcio, param na calçada e conversam, bem descontraídos. O Atelier fica localizado na esquina de uma movimenta avenida, onde passam muitos coletivos lotados. O trânsito, até então caótico, começa a ficar mais tranqüilo, o barulho das buzinas diminuem até cessar totalmente.
Um pedestre com um rosto engraçado vem se aproximando pela calçada junto de seu fiel cão preso em uma coleira. O cão levanta a pata traseira e urina no carro de Carlos, que não percebe. O pedestre cumprimenta Carlos e seu amigo.
- Bom dia!
Os dois cumprimentam o vizinho.
Do outro lado da avenida uma linda mulher, cerca de trinta anos sai de uma loja de antiquários e atravessa a calçada. Subitamente ela para e começa a observar os dois homens do outro lado. Sua expressão vai mudando rapidamente, até que percebemos em seus olhos uma mistura de surpresa e espanto. Seus cabelos estão soltos sobre os ombros, sua pele muito branca contrasta com seus lindos olhos negros, escuros. A semelhança com as pinturas de Carlos é brutal! Um ônibus para em sua frente. Neste momento seu rosto nos mostra uma grande preocupação. Fazia muito calor aquela tarde e a garota estava com um vestido florido, muito leve e delicado. Seu decote nos revela o colo nu.
Carlos se despede do amigo, segue em direção ao seu carro e sente o cheiro de urina. Abre a porta irritado. A mulher continua observando todos os gestos de Carlos, que não a vê. Ele entra no carro, no mesmo instante que ela gesticula várias vezes com a mão direita, como se quisesse chamar a atenção dele, que não percebe nada. Desiste.
À medida que nos aproximamos da mulher, seu rosto vai ficando mais familiar. Agora podemos ver um bonito desenho tatuado em seu corpo.
Carlos liga seu carro e sai devagar, para no semáforo, logo depois vira a esquerda e segue pela movimentada avenida.
29 - INTERIOR – APARTAMENTO DE CARLOS – NOITE
Carlos não estava legal esta noite, olhava um pouco triste para um retrato que guardava dentro de uma antiga agenda. Estava ouvindo música, sentado na cama, escrevendo. Não tinha muito este hábito, escrever! Seu barato era desenhar, pintar. O olhar, a contemplação. Mas sentia que iria encontrá-la, tinha a sensação de que ela estaria por perto. Com a exposição, a mídia, apareceria. Rabiscava coisas como: Como foi que perdemos o contato? Porque não consigo encontrá-la na internet? em lugar algum? Gostaria que visse seu retrato exposto! Mas será que vai gostar? Os retratos são minhas lembranças de você.
Carlos retira uma carta, dentro de sua agenda e começa e ler.
“JULIE
Ontem passei na galeria e comprei seu quadro de volta. Não era justo.
Não é você que está naquela tela.
Não sei exatamente o que está errado, fiquei horas olhando para cada pedacinho do seu retrato e não te encontrei. Seus olhos estão lá, mas ao mesmo tempo não são seus olhos que eu vejo.
Seus braços estão e não estão lá. Seu corpo, as cores, tudo está certinho. Mas ainda não é você.
Acho que de tanto te ver parei de te olhar direito.
Agora que você está longe, me lembro de cada fio de cabelo, de cada brilho.
E de repente imagens suas aparecem no rosto de outras mulheres.
Foi ai que resolvi tirar seu quadro da galeria e refazê-lo sem você. Chamei outra modelo.
Vejo seus olhos pretos, inescrutáveis. Olhos de corvo. Aqueles olhos que de repente se abrem, infinitos, ou os olhos que transbordam toda a melancolia do mundo numa única lágrima, solta no tempo.
Naquela boca, vejo a sua, pequena, um risquinho sumindo na palidez do seu rosto.
Vejo os dentes que rasgam o ar de tanto falar, ou os lábios que você puxa um pouquinho para o lado, quando está tentando mentir pra mim.
Olhos para as mãos dela e só consigo ver as suas. Mãos leves, que dançam suspensas no ar, e que de repente ficam fortes, capazes de estrangular um passarinho sem que ele solte um gemido.
Olhos os cabelos dela e sei exatamente como são os seus.
VEJO O SEU CORPO NO CORPO DELA. VEJO O SEU JEITO NO JEITO DELA.
Olhando para ela, sinto sua falta, sinto sua ausência.
É como se a vida inteira eu estivesse ocupado em te esquecer.
E agora, conforme vou me lembrando, é que estou realmente conhecendo você.
O outono está chegando. Vou deixar a porta aberta para quando você resolver voltar.”
O celular toca, várias vezes até Carlos perceber.
- Alô.
- Carlinhos, é o Lúcio. Cara, estão prontos seus retratos? Não dá mais pra esperar. A exposição começa amanhã, eu preciso dos seus retratos aqui e você ai ouvindo Smiths. Sei que estão prontos, que refez aquele último que retirou da galeria. Vamos lá, estou indo ai pra gente trazer as telas. Só falta você por aqui.
- Pode vir. To te esperando pra gente levar. Dane-se. Não tem mais o que alterar, o que mexer...
30 - EXTERIOR – AUTOMÓVEL DE LÚCIO -- NOITE
Lúcio fala ao celular.
- Fica frio cara, estão todos ótimos. Acredite! Será um sucesso e a imprensa, os críticos vão adorar. Tem mais, você precisa ver a disposição, a luz e tudo mais. To chegando ai na sua casa pra gente levar as telas. Os tempos mudaram e agora o negócio é sério. Seu trabalho precisa estar na galeria.
31 - INTERIOR – APARTAMENTO DE CARLOS – NOITE
A porta do apartamento já estava aberta, as telas estavam todas arrumadas, prontas para serem colocadas no carro. Eram pequenas, doze retratos de um mesmo rosto. De uma mesma mulher, desconhecida de todos. Retratos de uma mulher que Carlos havia perdido. Estaria ela também a sua procura?
- Carlinhos, ufa! Essas escadas são foda.
32 – INTERIOR – GALERIA – NOITE.
Carlos, Luísa e Lúcio estão no meio das pessoas, já haviam muitas na galeria, jornalistas e convidados de todo tipo. Carlos observa os críticos, as lindas estudantes de arte, alguns desconhecidos.
- Carlinhos, tem um montão de gente ai. Ta todo mundo adorando. Olha ali, os caras olhando seus retratos, seu trabalho. Adorei ter contribuído pra realização deles, sei como é importante pra ti a exposição destes retratos.
Luísa era assim mesmo, cabecinha meio vazia, de modelo. Curtindo a festa e as pessoas que estavam lá.
- Olha ali Lúcio, o cara ta super animado.
Lúcio aparece. Ele estava bem ocupado. Como curador da mostra tinha que atender a imprensa e receber os convidados, os patrocinadores.
33 – INTERIOR - GALERIA – NOITE
Carlos pediu que os quadros fossem colocados em seqüência, de acordo com as datas de realização. Havia finalizado o penúltimo trabalho dias antes da exposição. O último quadro, o maior de todos trazia uma tela vazia, emoldurada por um espelho, refletindo a imagens das pessoas curiosas, que se aproximavam.
De repente uma mulher se aproxima. Seu rosto se encaixa no centro da tela refletido pelo espelho, em meio à confusão de pessoas que falam, fotografam, fumam. Vira-se e olha em direção a Carlos que, distraído, fala com Luísa no outro canto da sala.
Um DJ discotecava na galeria.
Carlos (já meio cansado).
- Luísa, eu vou embora, isso aqui ta uma bagunça, vou pra casa descansar. Amanhã você me diz como terminou, ta bom.
Beija seu rosto e anda em direção a saída da galeria, próxima a última tela. Para logo depois do primeiro passo, quando vê a linda Julie a sua frente, retribuindo seu olhar. Seu coração acelera tamanha a surpresa e prazer de ver aquela mulher, tantos anos depois. Aproxima-se devagar. Quando estavam bem próximos um ao outro, toca seu rosto com delicadeza, os olhos dela brilham. Não ouvem mais vozes, músicas, nada. Só o silêncio que aquela surpresa repentina proporcionava. Aquele momento tão esperado. Ele segura as mãos da mulher e a conduz até um canto da exposição. Pede para ela ficar em frente à última tela.
- Só um instante, não saia daí em hipótese nenhuma. Hei, você ai com a câmera, vem cá! Me empresta. Tenho um último trabalho a fazer.
Carlos segura a câmera como um profissional, como quem sabe manusear esses brinquedos digitais. Posiciona o rosto de Julie no centro da tela, ajusta a luz, enquadra da mesma maneira de tinha pintado suas telas, com seu colo à mostra revelando a tatuagem. Clicou várias vezes. Logo depois segura suas mãos e a conduz até a sala de Lúcio.
Tinha tudo o que precisavam lá, notebook, scanner, impressora especial e todo tipo de papel. Transferiu as fotos para o computador, escolheu a melhor imagem e definiu o tamanho da impressão. Procura um papel com as mesmas dimensões, uma folha especial, dessas utilizadas para edição de livros de arte. Lúcio tinha quase uma gráfica ali na ampla sala, onde Carlos já cansou de comer a Carolzinha, quando Lúcio estava na Europa, visitando exposições. Imprimi a foto e rapidamente a coloca em uma moldura.
Os dois voltam para o salão, andam em direção à última tela. Retira o quadro da parede e substituiu pela foto, recém tirada. Ela observava quieta o comportamento de Carlos.
Carlos (chamando os convidados)
- Vejam todos minha última tela, a única verdadeira. Todas as outras são imitações. Esboços mal acabados.
Ao lado de Julie ele mostra o retrato aos fotógrafos, jornalistas e curiosos que se aproximaram, todos juntos. Lúcio e Luísa estão ao seu lado, curiosos com o convite inesperado. Aos poucos todos percebem que o retrato é da mulher ao lado de Carlos, o mesmo rosto de todas as telas expostas naquele salão. Os cabelos, a cor dos olhos, o tom da pele, a marca no corpo. Aquele rosto misterioso, desconhecido estava ali, de mãos dadas com o autor.
FIM
quarta-feira, 19 de março de 2008
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